Saturday, February 04, 2006

Recuperação da vida da Razão: os Princípios da Perfeição, Formação e Fundamentação. (Parte 2)

Eric Voegelin

O presente ensaio [Reason: The Classic Experience] é, obviamente, um ato de resistência em continuidade com o esforço clássico. As táticas utilizadas tornar-se-ão claras. Em primeiro lugar, o praticamente esquecido contexto experiencial do qual depende o significado da razão teve de ser restaurado. Ademais, tanto quanto foi possível nesse curto espaço, tentei estabelecer a coerência interna das partes da análise que nas fontes estão dispersas em ampla literatura. Da base da experiência restaurada, então, foi possível avançar para a psicopatologia da alienação e para a aspernatio rationis*. E dessa base alargada pela análise estóica foi possível, finalmente, caracterizar a revolta moderna contra a Razão, assim como o fenômeno do sistema.

Nessa difícil caracterização, contudo, tive de concentrar e selecionar os casos flagrantes; a importância geral da análise clássica como instrumento de crítica não se tornou inteiramente visível. Logo, será oportuno apresentar um diagrama dos pontos a serem considerados em qualquer estudo das relações humanas, do peri ta anthropina, no sentido aristotélico.

A coluna vertical da esquerda lista os níveis na hierarquia do ser do Nous ao Apeiron. O homem participa de todos eles, sua natureza é um epítome da hierarquia do ser. A seta apontando para baixo indica a ordem de formação de cima para baixo. A seta apontando para cima indica a ordem de fundamento de baixo para cima. A coluna horizontal no alto mostra as dimensões da existência humana como pessoa na sociedade e na história. A seta apontando para a direita indica a ordem de fundamentação.

Princípio da perfeição: uma filosofia peri ta anthropina deve cobrir a grade determinada pelas duas coordenadas. Parte alguma da grade deve ser hipostasiada em um ente autônomo, negando o contexto.

Princípio da formação e da fundamentação: a ordem da formação e da fundamentação não deve ser invertida ou distorcida, como, por exemplo, pela sua transformação em uma causalidade agindo de cima ou de baixo. Especificamente, todas as construções de fenômenos de um nível mais alto como epifenômenos de processos em um nível mais baixo, as chamadas falácias reducionistas, estão excluídas como falsas. Essa regra, contudo, não afeta a causalidade condicionante que é a essência mesma da fundamentação. Inversões da ordem de fundamentação na coluna horizontal tão-pouco são permitidas. Especificamente, todas as “filosofias da história” que hipostasiam a sociedade ou a história como absolutos, eclipsando a existência pessoal e seu significado, estão excluídas como falsas.

Princípio da realidade metáxica: a realidade determinada pelas coordenadas é a realidade participatória (In-Between reality), inteligível como tal pela consciência do Nous e do Apeíron como seus pólos limitantes. Todas as “fantasias erísticas” que tentam converter os limites da metaxy - seja esse limite a altura noética ou a profundidade apeirôntica – em um fenômeno dentro da metaxy devem ser excluídas como falsas. Essa regra não afeta os simbolismos escatológicos e apocalípticos genuínos que imaginativamente expressam a experiência de um movimento dentro da realidade em direção a um Além da metaxy, como são, por exemplo, as experiências da mortalidade e da imortalidade.

O diagrama mostra-se de valor particular para estudantes, uma vez que lhes fornece um corpo mínimo de critérios objetivos para o verdadeiro e para o falso na luta contra a avalanche contemporânea de literatura opinante. Ajudado pelo diagrama, é possível classificar falsas proposições teoréticas localizando-as na grade. Marcar num dos 21 retângulos do diagrama as idéias populares do momento pode ser um jogo emocionante para os estudantes. Além de funcionar como auxílio técnico para o domínio dos fenômenos contemporâneos de desordem intelectual, o diagrama teve, nos estudantes, o importante efeito psicológico de superar o sentido de desorientação e de perda na avalanche ingovernável de falsas opiniões que lhes atinge todo dia.

* desprezo pela razão.

Tradução: E. Santiago

CW VOL 12,
Reason: The Classic Experience
Appendix
pp 289-291.

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